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03 março 2014

A Alma do Entrudo

Carlos González Ximénez - Álbum de Carnavais Rurais aqui


Na fronteira entre o Inverno e a Primavera, os demónios andam à solta em Lazarim. Com cerca de 700 habitantes e um único acesso por estrada, esta vila do concelho de Lamego é palco de um dos Entrudos mais genuínos de Portugal. 
A festa começa muitas semanas antes do domingo gordo. Os artesãos esculpem as máscaras dos caretos em madeira de amieiro, os rapazes e as raparigas miram os defeitos uns dos outros para redigirem depois os ácidos testamentos em rima. Terminada a queima do compadre e da comadre, todos se juntam no terreiro do Carnaval para partilhar os sabores de uma feijoada e de um caldo de farinha.

Reportagem de Manuel Vilas Boas com montagem e sonorização de João Félix, a 24 de Março de 2006. Para ouvir aqui.






31 outubro 2013

Halloween... Samhain... por cá são os Magustos!

O título do post de hoje é daqui

Finaliza a época das colheitas. Entra a estação da escuridão.

O véu entre o mundo dos vivos e dos mortos torna-se mais ténue. Celebra-se a morte e o renascimento, honrando os antepassados.

O elemento fogo, presente nas fogueiras, purifica e protege, despoletando uma postura intropectiva, tal como as sementes que se vão desenvolvendo na terra. 

O autor galego José Manuel Barbosa refere que "ao nome de Magusto têem-se-lhe dado várias orígenes etimológicas dentre elas a de “MAGNUS USTUS” que vem significar al assim como “grande fogueira” donde MAGNUS é grande e USTUS, queimado, ardido, o participio passado do verbo “Uro”, arder, queimar. Pode ter umha certa lógica mas nós quigêramos propor outra desde aquí que tem a ver com as palavras “MAGUS” feiticeiro, bruxo, mago e “USTUS”. A maioria das palavras em galego-português provêem do acusativo latino que neste caso seria “MAGUM USTUM” donde seria mais fácil explicar a deriva para “Magusto”, e mesmo em dativo “MAGO USTO” literalmente “…ao ou para o mago queimado” querendo falar quiçá dumha fogueira para queimar magos segundo criterios anti-pagaos medievais? Quiçá se refira à fogueira onde os magos faziam as suas queimadas entendidas como rituais com fogo? Pode derivar daí a queimada galega com o seu ritual hoje vulgarizado e desprovido de qualquer conotaçom esotérica? 





Recomendados dois artigos sobre a presença dos magustos/magostos no património imaterial galego-português -  aqui e aqui




22 outubro 2013

Karva Chauth Vrata

Karva Chauth Vrata October 22, 2013 
Sacred fast for well-being and good fortune of the family.

In India, the sacred fast of Karva Chauth empowers the married woman with the power and grace of Shakti. Women fast for the good fortune, well-being and longevity of one’s partner. Men in gratitude wow to protect and nurture their family. 

Karva Chauth is the most sacred fast as the woman goes through the entire day without any food or water till the sighting of the Moon. Fasting symbolizes the ability of purity, and being grounded and calm. Every woman must hold to the sacredness of this festivity by contemplating on the nurturing, harmonious and spiritual aspect of this festival. 
(...)


Karva Chauth Celebrations
‘Saubhagyavati’ is the auspicious, joyous and happy state of womanhood. Karva Chauth reflects the abundance, prosperity, harmony and happiness of the family. The woman in Hindu dharma epitomises the form of Shakti, the Mother Goddess. She brings in prosperity in the form of Shri Lakshmi. Honoring the woman in every tradition will help sustain the well-being and harmony of the universe. It is a time of celebration symbolising the attributes of the Mother Goddess in worldly objects like gold finery, silver, red bangles, silk, henna, sindhur (mark of a married woman), flowers in the hair, ittar, incense, sweet offerings. These reflect the marital status of every woman.


Karva Chauth Rituals
At the hint of dawn we move through the rituals of purification and adorning, before partaking of food, fruits, water or milk. The rest of day no water or food is taken.

Sargi
Preparations for Karva Chauth begin the previous day with the Sargi or special food items which are eaten before sunrise. Mathi or flour circular rounds with a hole in the center is kept in the Thali.

Baya
On Karva Chauth, traditionally, it is the mother who usually sends Baya or the Karva Chauth Pooja Thali which consists of the roli, kumkum (vermilion), sacred water in a kalash (small earthen pot), dry fruits like almonds, pistachio, diyas or ghee lamps, token money and sweets. After the puja, this thali is presented to the eldest member of the family who blesses the woman.
A Kalash or earthen pot is filled with sacred water. In the Kalash is placed Pancha Ratna (five pieces of different metals gold, silver, copper, brass and iron).

Mehndi or henna
Henna is considered auspicious for married women and forms an important part of Karva Chauth rituals symbolising prosperity and good luck. 

Karwa Chauth Puja
Women gather together in someone’s house and perform the puja in the evening. The sacred space is decorated consecrating the murti or icon of Devi Parvati and the earthen pot with grains, flowers, incense and diyas. The diyas are lit in everyone’s Thali and the Vrata Katha or story is narrated. A part of the fruits and food grains are offered to the Mother Goddess, while the other half is served to the story teller. One must visit a temple or spend time in prayer in one’s sacred space making offerings to the Mother Goddess and Shiva Maheshvara with flowers, incense and ghee lamps. One must pray to Shri Ganesha to remove all the obstacles in our path and bestow on us the buddhi or wisdom of divine grace.
A Thali or tray is decorated for the evening ritual with a ghee lamp, an earthen pot filled with water, a sieve to view the Moon.

Ritual of honoring the Moon
One eagerly awaits the rising Moon to culminate the prayers and fasting after seeking the Soma of the Moon. One is usually informed of the rising Moon as the woman must not look at the Moon directly. The Thali with the lit ghee lamp, earthen pot filled with water and sieve is taken for the puja. Viewing the Moon through the sieve or sighting its reflection in the Thali we offer water and Arati to the Moon, seeking the grace of the Soma to flow into our lives so we are able to nourish, nurture and cherish everyone around us. One must then look at the partner through the same sieve and show reverence touching his feet. The water offered to the Moon is taken to end the fast before embarking on the festivities. This is a reminder to all men to take up their responsibilities in the world of respecting and nurturing the divine feminine form.

Karva Chauth Mantras
Om Namo Parvati Patey Har Har Mahadeva

Sarva-mangal-maangalye, Shive Sarvaarth-saadhike
Sharanye-trayambake Gauri, Narayani Namo-stute

Fontehttps://www.facebook.com

24 junho 2013

São João


Por Flor

Festa cíclica, de raiz pagã, que assenta, fundamentalmente em “sortes” amorosas, encantamentos e divinações que se devem relacionar, por um lado, com o casamento, a saúde e a felicidade, mas que andam também estreitamente ligadas aos antigos cultos pagãos do Sol e do fogo e às virtudes das ervas bentas, ao orvalho, às fogueiras, à água dos rios, do mar e das fontes.

Quem saltar a fogueira na noite de S. João, em numero ímpar de saltos e no mínimo três vezes, fica por todo o ano protegido de todos os males.

Diz a tradição que as cinzas de uma fogueira de S. João curam certas doenças de pele. Para certos males, são benéficos os banhos que se tomem na manhã do dia de S. João, mas antes do Sol nascer. No Porto,  os que se tomavam nas praias do rio Douro ou nos areais da Foz, valiam por nove...

As orvalhadas têm a ver com a fecundidade. Uma mulher que se rebole de madrugada sobre a erva húmida dos campos (“...para tomar orvalhadas / nos campos de Cedofeita”) fica apta para conceber. Segundo um conceito antigo as orvalhadas eram entendidas como o suor ou a saliva dos deuses da fertilidade. Uma outra velha tradição assegura que os namoros arranjados pelo S. João são muito mais duradouros do que os que se formam pelo Carnaval “que não vêm chegar o Natal..."

Em Beja põem-se, numa tábua, 12 montinhos de sal, aos quais se dão os nomes dos meses. Passam depois a tábua pelo fumo de uma fogueira e deixam-na ficar toda a noite ao relento da manhã. Antes de o sol nascer, correm à tábua para examinarem qual dos montinhos de sal está mais húmido, e é então que sabem quais os meses em que choverá mais, segundo os nomes que lhes deram e a humidade de cada um.

Em Trás-os-Montes, acreditava-se que o costume de as raparigas cortarem as pontas do cabelo e, antes do nascer do Sol, as colocarem sobre uma silva mansa fazia com que as pontas não voltassem a espigar.

Por todo o País, criaram-se estas lendas em volta da noite de São João.

Em Lisboa diz-se que se na noite de São João a rapariga põe a mesa com dois pratos, talheres e comida e à meia-noite começa a comer, no lugar vazio surge-lhe a figura do futuro noivo.

No Algarve, segundo a tradição local, enquanto as raparigas dançavam em redor de um mastro enfeitado com madressilva e flores de São João, os rapazes saltavam a fogueira, o que os tornava homens adultos e protegia as crianças das doenças.

As mães passavam por cima das chamas (sem queimar, claro) as crianças doentes ou fracas, e para todos era bom dizer quando saltavam a fogueira:

"Fogo no sargaço,
saúde no meu braço.
Fogo no rosmaninho,
saúde no meu peitinho."

A noite de São João é considerada mágica desde a Idade Média. Diz-se que as "mouras encantadas" deixam a forma de cobras, com que vivem todo o ano, e vêm à tona da água com figura humana. Na madrugada de São João vão as mouras estender os seus tesouros à orvalha do campo. Esses tesouros ficam aí encantados sob a forma de figos. Se alguém passa, os apanha e não os come, transformam-se em verdadeiros tesouros. Se, porém, a pessoa que os apanha os come, reduzem-se logo a carvão. 


 Estrela Faria -  Feira de S. João











Fontes



28 fevereiro 2013

Maria Quaresma

Por Carlos Gomes e Maria Odete Nunes Madeira



Serração da Velha - Flávio Cruz

Teófilo Braga, no seu livro "O Povo Portuguez nos seus Costumes, Crenças e Tradições" (vol.II), refere que a Quaresma é representada como uma entidade, e em meados desta época faz-se a Serração da Velha. O mesmo autor afirma que entre os árabes, os sete dias de solstício do inverno são chamados "os dias da Velha", perseguida pelo Maio moço ou o verão, tal como Ernesto Veiga de Oliveira nos diz que “O nome da velha aparece … numa expressão meteorológica, que … designa um período que vai dos fins de Fevereiro aos princípios de Março… e que se encontra pela primeira vez em escritores árabes do século XIII, que lhe atribuem uma origem grega.” (1)

Em Portugal as manifestações da expulsão do inverno e o saudar da Primavera têm também a sua representação através da Serração da Velha - renascimento da natureza e o reinício de um novo ciclo da vida. Carlos Gomes escreve:
"(...) Ao começo dos tempos está associada a acção criadora dos deuses. Como tal, é este considerado o tempo sagrado em relação ao qual o Homem, através do rito, procura celebrar o gesto divino e primordial e participar na sua acção criadora. Consequentemente, ao festejamos a chegada da Primavera, nomeadamente a Serração da Velha, asseguramos através de um ritual mágico a continuidade do seu gesto criador e o perpétuo renascimento da vida e da natureza, quer o mesmo seja simbolizado no ovo pascal ou na Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo".

Ao observar o ressurgimento constante da natureza, a antiga crença associava a morte à vida num ciclo de perpétuo renascimento. A morte jamais representava o fim da vida mas antes um processo de regeneração indispensável ao nascimento de uma vida nova. Por conseguinte, a Serração da Velha anuncia a chegada da Primavera e o renascimento da vida vegetal, o desabrochar das flores e o esplendor do Sol cujos raios já nos deslumbram, por entre as derradeiras chuvas do Inverno, com a formação na esfera celeste do colorido “Arco da Velha”.

Sendo assim, a velha estava conotada com a morte, com as trevas da noite, o frio e as agruras do inverno; ao expulsá-la a meio da Quaresma o povo abria o caminho para a vinda da primavera, para a chegada da luz, do calor que trazem alegria e desenvolvem a vegetação, que fecundam e procriam. É ainda neste sentido que Adolfo Coelho nos diz que a Serração da Velha, o Enterro do Bacalhau e os Judas de Sábado de Aleluia mais não são do que a expulsão da morte, do longo período de inverno letárgico e redutor, ideia que Alberto Pimentel também defende quando afirma que “O costume da Serração da Velha parece conservar a tradição mítica da expulsão do inverno pela sua personificação numaVelha…” (...)

Aurélio Lopes, mais recentemente, acrescenta que “O escuro e famélico inverno, tempo de fome e frio, personalizar-se-á assim na Quaresma que, pelo seu carácter de abstinência, torna ainda mais austero um tempo pela austeridade já marcado.”[6] Não esqueçamos que o dia assinalado pelo povo para praticar este acto de Serração da Velha foi a noite da quarta-feira da terceira semana da Quaresma, isto é, mais ao menos a meio de um período de quarenta longos dias que a Igreja consagrou à penitência, ao jejum, ao sacrifício, à mortificação. As próprias representações artísticas da Quaresma apresentavam, regra geral, uma senhora trajando de negro, em sinal de luto profundo e era “…tomada por uma velha pálida, magra e seca tal qual um peixe.”

Seja qual for a sua origem, a Serração da Velha marcou, durante longos anos, a cultura tradicional do povo português. De norte a sul do país, a chinfrineira, o barulho ensurdecedor, os chistes, a crítica social, o ajuste de contas juntamente com o cortiço, o serrote, o funil, o chifre, as sarroncas, as latas, a gaita de foles, e ainda a velha, os cortejos, os palanques destinados a ser o  cadafalso da dita, os testamenteiros, as velhas personificadas em bonecas de palha deitadas em esquifes ou espetadas em paus, … imperavam nesta noite.



Fontes:

12 fevereiro 2013

Moda do Entrudo - canção chocalheira e máscaras...









Miutopia


"Uma máscara não existe em si (...), não é aquilo que representa mas aquilo que transforma, isto é, que escolhe representar. Como um mito, uma máscara nega tanto quanto afirma; não é feita somente daquilo que diz ou julga dizer, mas daquilo que exclui".

C. Lévi-Strauss

In A vida das máscaras. Lisboa: Editorial Presença, 1982, p. 124.


Bom entrudo!!!

10 fevereiro 2013

Mais Entrudo...



Tradição e simbolismo

O Carnaval dos nossos dias, urbano ou rural, remontará, na sua origem, às antigas festas da Natureza, de fundo agrário. As Saturnais romanas e as Lupercais celebradas em honra de Pan, o deus dos rebanhos. A expressão popular “é Carnaval, ninguém leva a mal” encontra o seu fundamenta nos rituais licenciosos próprios destas festividades, uma licenciosidade socialmente consentida que, a par de outros rituais de carácter expurgatório, constitui ainda hoje a sua principal característica.

Podemos afirmar que na origem do Carnaval radica uma série de elementos e ritos religiosos das antigas sociedades grega e romana. Por outro lado, já na época medieval, a Igreja assume estas celebrações conferindo-lhes um novo significado: a preparação para o longo período de jejum que são os quarenta dias da Quaresma. Daqui, o uso indistinto dos termos carnaval , do latim carne, vale , isto é, adeus, carne e entrudo, introitu , entrada. Que é como quem diz, adeus, carne que vamos dar entrada na Quaresma.

O carácter licencioso radicará nas antigas festas Lupercais, celebradas na antiga Roma em meados de Fevereiro e que se expandiram um pouco por todo o Império, em honra do deus Pan, protector dos pastores e dos rebanhos. Mais do que em qualquer outra festa, eram permitidos aos foliões todos os excessos no uso e abuso da comida e da bebida e na fuga às normas moralmente instituídas. As anomias eram praticadas e assumidas pelos próprios sacerdotes, constituindo verdadeiros rituais de simulação do acto sexual e de apelo à fecundidade. O momento do ciclo agrário era propício à celebração destes rituais: a aproximação da entrada da Primavera considerada como o momento do rejuvenescimento da Natureza.

Os rituais expurgatórios destinavam-se à purificação e expurgação dos males sociais, moléstias, maus presságios e augúrios nas pessoas e nas comunidades. São exemplos destes rituais a destruição pelo fogo de figuras alusivas ao passado (tudo o que é velho), o julgamento e queima do Entrudo, do Velho e de outras figuras míticas, em cerimónia pública, o castigo que os mascarados infligem às mulheres que se atrevem, nesse dia, a sair à rua, as frenéticas “chocalhadas” e correrias, a crítica social expressa na encenação dos “casamentos” burlescos e ridicularizantes dos jovens “casadoiros”… rituais expurgatórios deste momento de passagem que é o fim do Inverno e a entrada na Primavera que vigoram aqui e ali, um pouco por todo o lado.
Apesar da “cristianização” que todas estas práticas sofreram ao longo de cerca de dois mil anos, podemos entender ser ainda hoje esse mesmo o sentido, ainda que inconscientemente, a dar aos rituais carnavalescos. Desenrolados no Domingo Gordo, Carnaval e Quarta-feira de Cinzas.

A função das máscaras
O mascarado assume hoje funções meramente profanas, bem distintas das que estão na origem do seu aparecimento. Com excepção da máscara grega usada nas representações teatrais para conferir uma certa personalidade às diferentes personagens, bem como a do género dramático commedia dell'arte , a máscara na Antiguidade surge como adereço imprescindível ao exercício de actos mágicos e socialmente aceite como tal: rituais sagrados de ligação entre os vivos e os mortos, entre o homem e adivindade, rituais profilácticos e propiciatórios e rituais de iniciação.

É neste contexto que aparece a máscara de Carnaval. Qualquer momento de passagem é crítico para a comunidade que o vive. O Carnaval situa-se no momento de passagem do Inverno para a Primavera ou de um ano a outro (segundo a antigo calendário gregoriano, o ano começava em Março). Logo, o Carnaval corresponde a um momento crítico para as sociedades agrárias. A presença do mascarado justifica-se assim e a sua acção relaciona-se com a preparação para essa passagem, através do desempenho das suas funções sagradas que hoje se revestem de características meramente profanas. Por isso, o mascarado activo transforma-se num ser superior. Gozando de uma força e liberdade sem paralelo. Coloca-se acima de toda a norma e, como se de um ente sagrado se tratasse, mas possuído pelo diabo, se liberta de todos os entraves e dá largas às suas faculdades de destruir e castigar, de troçar e criticar, de dançar e gritar a seu bel-prazer.

Dr. A. Pinelo Tiza


Fotos lindas do Entrudo em Lazarim aquiaqui e aqui

Fonte:

02 fevereiro 2013

A Festa da Luz, da Candelária (Imbolc)

Por estes dias (1 e 2 de fevereiro), sagrados para as antigas tradições matriarcais, acendia-se, mais uma vez, o fogo. O culto do fogo perpétuo tem raízes na aurora da humanidade, para quem este fogo era essencial para a sua própria sobrevivência. Representando o retorno do calor e o incremento da luz solar, da Luz da Vida, o acordar da terra e a preparação desta mesma ao encontro da primavera, da fertilidade.

A Deusa céltica do Fogo, Brighid, é homenageada com fogueiras, rodas solares, coroas de velas e rituais, procurando assim despertar o fogo criador. Esta Deusa Tríplice guia-nos ao Entrudo com os seus atributos, regendo a Inspiração (arte, criatividade, poesia e profecia), a Cura (ervas, medicina, cura espiritual e fertilidade) e a Metalurgia (ferreiros, ourives e artesãos).



A data foi cristianizada com o nome de Nossa Srª das Candeias, ou Candelárias, no dia 2 de Fevereiro, sendo uma festa igualmente feminina onde é (era) habitual haver uma cerimónia de benção e procissão das velas.
São cerca de 70 as localidades portuguesas que têm por padroeira a Nossa Senhora da Luz, Nossa Senhora das Candeias ou Nossa Senhora da Purificação. Entre outras tradições, esta celebração envolve uma novena, a decoração especial da igreja e uma procissão. No inicio da expansão do cristianismo, as populações mantinham a tradição pagã de acender velas, pelo que os sacerdotes começaram a encaminhar as procissões para o interior das igrejas, criando assim as procissões de velas.

Segundo alguns saberes ancestrais, este dia assinala também o inicio da floração das oliveiras (oliveiras = azeite = luz) e é tempo de se comerem filhoses (antigamente também fritas em azeite), que têm anualmente três dias específicos: o natal, 8 de Dezembro (Imaculada Conceição) e este mesmo dia.



Imbolc, Candelária, Festa de Brígida... Em qualquer das tradições em apreço celebra-se o fim do Inverno e o retorno da Luz primaveril.



Fontes:
http://castelodasandrix.wordpress.com/2011/02/01/a-festa-da-luz-imbolc-the-celebration-of-light-imbolc/

http://durvate.wordpress.com/2012/01/31/vem-ai-o-entroido-imbolc/

http://camaleaolunar.blogspot.pt/2011/01/2-de-fevereiro-senhora-das-candeias.html

http://castelodasandrix.wordpress.com/2012/02/02/imbolc-o-crescimento-da-luz/

30 dezembro 2012

Ritos...


Falar da noite de 31 de Dezembro é, obrigatoriamente, lembrar praxes, superstições, costumes ligados ao ano que finda e nos permitem, pela sua vertente profiláctica e intercessora, ter esperança no novo ano que começa. Com essa crença, comem-se passas de uva, fazem-se soar apitos, colocam-se na cabeça chapelinhos coloridos, veste-se uma peça de roupa azul, salta-se para cima de uma mesa ou de uma cadeira, bebe-se uma taça de champanhe, deita-se fora um caco velho. Repetem-se, por escrito ou de viva voz, os votos de «boas saídas», «boas entradas», «prosperidades», «saúde», «paz», «felicidade».

Tudo isto a fazer lembrar remotas sobrevivências de ritos mágico/propiciatórios de purificação, de abundância e de fertilidade, assim como de excomunhão de poderes maléficos ou nocivos.
(...)
O costume de se fazer barulho na noite do ano que começa, terá o sentido popular de «enxotar o velho» (o ano que termina), prática seguida noutros países, em que se fazem ainda grandes fogueiras na Noite de Ano Novo para «queimar o ano velho» e se realizam praxes mágicas com o fim de «expulsar as bruxas e os espíritos maus».

O hábito, antiquíssimo, de atroar os ares com maior ou menor barulheira, utilizando diversos objectos (latas ou tampas de panelas), poderá ter a sua origem em certos países da Europa e noutros onde se procedia ao ritual «de se bater com um pau (ou mangual) no chão de cultivo durante a noite do último dia do ano e nas noites seguintes», com a intenção de «afugentar os espíritos malignos que prejudicavam a renovação do solo, o revigorar das raízes e o germinar das sementeiras».

Também a tradição de «escacar» (partir) loiça já velha constitui uma prática com objectivos mágicos, profilácticos ou propiciatórios, ligados ao sentido de felicidade.

Nas nossas aldeias, em tempos idos (o mesmo acontecendo noutros países), havia o uso de as mulheres irem guardando, durante o ano, a loiça velha, principalmente loiça de barro (cântaros, tachos, bilhas rachadas, sem asas, sem bico), para ser completamente «escaqueirada» na noite de passagem de ano, juntando-se o povo nas ruas para assistir e participar no ritual – ainda aqui simbolizado pelo acto de «deitar fora o ano velho».

Outro costume que se conserva em algumas aldeias portuguesas (como na Beira Baixa e Alentejo), consiste em marcar as portas com farinha na Noite de Ano Novo, para «dar sorte». Chamado, popularmente, «o milagre das portas», conta que «um soldado de Herodes terá descoberto a casa onde Jesus se albergava. Por ser de noite lembrou-se de marcar a porta com farinha. De manhã, quando regressou com outros soldados, todas as portas estavam marcadas do mesmo modo, acabando os perseguidores por desistir da busca». Lenda semelhante vamos encontrá-la pela Páscoa, com as portas assinaladas com ramos de giesta.


O Ramo
Antes da chegada do ano novo, os habitantes de Réfega (Bragança) preparam um ramo composto por doces, frutos e cigarros o que, segundo a crença, o transforma numa árvore fértil.
No dia de ano novo o ramo é leiloado em hasta pública, revertendo as dádivas para as despesas desta Festa do Ramo.
Já em Rio de Onor, que também cultiva a tradição do ramo, este ritual é protagonizado pelas jovens da terra. Dias antes, as zeladoras da santa (Nossa Senhora de Fátima) fazem o seu peditório pelas casas da aldeia. A finalidade é reunir géneros necessários para o arranjo do ramo. "A base fundamental é a chouriça e algum salpicão; chegam a juntar mais de 15 quilos de chouriças, fora os salpicões", explica um morador. No entanto, outros géneros podem ajudar a compor o ramo, algum tipo de guloseimas, chocolates e bolos confeccionados pelas próprias moças.

O ramo dos Reis assim preparado integra a liturgia da missa, "é conduzido em cortejo e com o acompanhamento de todos os habitantes para a igreja". No fim da missa é leiloado no adro, à frente do povo e perante a cobiça de alguns forasteiros que aqui se deslocam com a finalidade de adquirirem o fumeiro do ramo. O resultado do leilão reverte a favor da Santa.

Idêntico ao ritual do "charolo" (andor adornado com roscas de pão) celebrado em outras terras do Nordeste, o ramo enquadra-se cabalmente nas festividades agrárias, de celebração da fertilidade e da abundância e possui um significado perfeitamente condizente com a nossa religiosidade popular: oferecer à divindade o que de melhor se possui, para que a divindade seja generosa, ao ponto de multiplicar as oferendas, no novo ano e no ciclo agrário que se inicia na Natureza.


Fontes:

26 dezembro 2012

Chocalheiro de Bemposta - o nascimento do Sol

Quando o Chocalheiro sai à rua no dia 26, tem a função de anunciar o nascimento do Sol Invictus (festa romana que se celebrava a 24 e 25 de Dezembro), ou em termos cristãos, o nascimento de Jesus, o novo Sol ou Luz do Mundo.  


Diz a lenda que o demónio tentou Nossa Senhora. Como castigo, foi penalizado a pedir esmola para Ela e seu filho, o Menino Jesus. 

Apesar da sua máscara terrível e medonha que faz ainda arrepiar muita gente, o chocalheiro é uma figura simpática e cheia de significado.
Vestido de linho grosseiro tingido de preto, o chocalheiro de Bemposta aparece como uma figura tauromórfica. Nas pontas dos chifres ostenta duas laranjas espetadas; cai-lhe do "queixo uma barbicha de bode; na parte da nuca pende-lhe uma bexiga de porco cheia de vento; na testa tem um disco e, escorrendo pela face, uma pequena serpente; na mão segura uma tenaz e mostrando uma serpente de grande porte rodeada à cintura, ".
“O touro representou para os antigos a força física e criadora e onde quer que este símbolo apareça, quer nas culturas Neolíticas, quer na iconografia ou nos ídolos de forma bovina, eles marcam a presença e são a expressão da Grande Mãe da Fertilidade”, como diz António Mourinho.

Mas há outro símbolo fundamental que não pode passar despercebido na interpretação iconográfica da máscara do Chocalheiro de Bemposta: é a serpente que tem rodeado à cintura e também na testa. A serpente é um animal simbólico da fertilidade. Mas, além de simbolizar a fertilidade, a serpente é um animal de simbolismo polivalente, mas todos os símbolos "convergem para uma única ideia central: a serpente distribuidora de fecundidade, ciência e, mesmo, imortalidade”. Representa um desejo, um anseio, uma aspiração ao saber para ter o poder. Lembremos o caso do Livro do Génesis em que a serpente apontava a Adão e Eva o caminho da deificação, se comessem o fruto da árvore proibida por Deus. Além disso, havia um mito arcaico que dizia que a serpente guardava a fonte sagrada da imortalidade.
No Chocalheiro, a serpente será mais um símbolo da Terra Mãe, que tudo produz para a vida do homem, desde a água até às plantas e animais. “A serpente simboliza o Caos, o amorfo. Porém, decapitá-la equivale a um acto de criação, passagem do virtual e do amorfo ao formal, ao Cosmos, à fertilidade”, diz Mircea Eliade.

Não há dúvida de que todos estes elementos são iconograficamente importantes e podem dar pistas muito interessantes para a interpretação etnográfica e mitológica da figura, e pode contribuir para se poder saber alguma coisa sobre a origem desta e de outras figuras e o seu significado. A máscara e a indumentária são conotadas com o diabo: máscara com cornos com duas laranjas aí espetadas, fato preto com uma série de listas brancas e vermelhas, uma caveira pintada nas costas, um rabo de crinas compridas, uma bexiga de porco pendente do capuz, uma figura de serpente a tiracolo e numa das mãos uma tenaz de ferro, provavelmente com o simbolismo de recolher os bens supérfluos dos vivos, para a entidade sagrada à qual está subjugado nesse dia (26 de Dezembro - Nossa Senhora das Neves ou 1 de Janeiro - O Menino Jesus).
Os frutos que o Chocalheiro ostenta no alto dos chifres, assim como os que recebe, não são mais do que o símbolo dos frutos que se desejavam e desejam para o novo ano que começa.

(...)



Crenças relacionadas com a serpente e a fecundidade existem em toda a Euro­pa, ainda hoje, mesmo entre nós. Um pequeno exemplo é ouvir dizer com frequência que quando as cobras saem das tocas a chuva não falta o que pode estar relacionado com antigas crenças que relacionavam as serpentes com a fertilidade da Terra Mãe.
A nossa gente ainda hoje diz que a "chuva é o sangue da terra". Outro exemplo da relação mulher-serpente-fecundidade-fertilidade é o caso da India em que as senhoras que desejam filhos adoram as serpentes.                   .
No caso do Chocalheiro de Bemposta e de Bruçó a serpente será mais um símbolo da Terra Mãe que tudo produz para a vida do homem desde a água até às plantas e animais.
Os frutos que o Chocalheiro ostenta no alto dos chifres não são mais do que o símbolo dos frutos que se desejavam e desejam para o novo ano que começa. E o caso das Fogueiras do Galo: o homem do gentilismo desejava luz e calor? acendia fogueiras para atrair o Sol. Queria frutos da terra abundantes? ostentava os frutos da colheita; queria água abundante? entornava água no chão.
Nestas figuras aparecem outros elementos que, embora de menos valor, não nos devem passar despercebidos. Em Bemposta o Chocalheiro apresenta-se "armado" de uma tenaz de ferro. Em Vale de Porco o "Velho" aparece de espeto na Mão. Em Tó o "Farandulo" aparece com uma estaca de pau. Estes instrumentos serviam para tirar peças dos fumeiros nas casas onde aque­las figuras entravam.
(...)


Fontes: