22 novembro 2011

Gravidez e Parto: rituais da Deusa



Vera Lucia Emerim

"Somente a vida simbólica pode expressar a necessidade da alma - a necessidade diária da alma... E porque as pessoas não têm tais coisas, elas nunca saem desse moinho - esta vida banal, terrível, opressiva, na qual não são "nada mais que". No ritual, elas estão próximas a Deus; elas são divinas". C. G. Jung (1939)

O simbólico é o que transcende a estreiteza da consciência pessoal. Perceber a gravidez e o nascimento como símbolos enriquece e promove crescimento, abrindo o feminino para uma religação com sua base feminina vital mais profunda. Assim como a água sempre corre para o fundo, a grávida é levada para mais baixo e para mais dentro, em maior proximidade e intimidade com os processos inconscientes. É um deixar fluir, entregar-se e se reposicionar sobre a base de sustentação, o apoio de seu substrato natural, ligado à Mãe-Terra.

Na era religiosa matriarcal, a grande-deusa-mãe como mãe-lua, mãe-terra ou mãe-natureza, era o poder generativo, seu útero e seios eram venerados. Era a deusa criadora, mãe de tudo o que existe. O universo era visto como uma mulher dando à luz a todas as formas de vida. Na imagem da deusa-mãe, mulheres de tempos antigos encontravam o reflexo de sua natureza mais profunda.

A experiência de que a mulher grávida é também a representação da grande mãe telúrica, que deu origem a vários costumes. Por exemplo, o parto no chão. Existem estátuas de deusas do nascimento, de joelhos na posição de uma mulher dando à luz. Em textos egípcios, a expressão "sentar no chão" é igual a "dar à luz" ou "nascer".

O significado religioso deste costume, segundo Mircea Eliade, historiador de religiões, é: "Nascimento e parto são versões micro-cósmicas de um ato exemplar executado pela terra; mães humanas imitam e repetem o ato primordial que fez a vida aparecer sobre o seio da terra; conseqüentemente, cada mãe tem de fazer contato com a Grande Generatrix e ser guiada por ela para realizar completamente o mistério que é o nascimento de uma vida, como também dela receber energias benéficas e encontrar sua proteção materna."

A capacidade natural da mulher de gerar um filho, uma vida no seu corpo é a oportunidade dela vivenciar uma iniciação, regida pelo princípio lunar. Um mistério feminino que implica em submeter-se a um processo de amadurecimento, no qual há uma aquisição de conhecimento que engloba o receptivo, recebendo a semente e nutrindo as raízes em silêncio; é uma doação paciente, tolerante, um entregar-se, agüentando a transformação.

Neste sentido, a gravidez e o nascimento podem tornar-se uma aventura psicológica profunda, por meio dela a mulher sente sua unidade com a mãe criativa, sua identidade com ela. É um percurso a ser percorrido sozinha, gestando a nova vida em si. A mulher grávida foi venerada desde a antiguidade como representando "algo em si mesma", "algo individual", e a gravidez pode propiciar essa experiência de se tornar completa em si mesma, independente do masculino.

(...)

Esse se entregar a si mesma ou à deusa em si, não é uma aceitação passiva, mas uma resposta aberta a um momento afirmativo da vida que demanda coragem e fé, isto é, entrega ativa. Uma posição que não interfere, mas colabora com o processo natural. Na hora de dar à luz, ao desistir de si, para ser somente um canal, um meio de escoamento para a nova vida, aceitar a dilatação, a dor da contração, entender uma dinâmica nova, onde as quantidades de esforço e não-esforço só podem ser penetradas por uma visão de conjunto.

No parto a mulher experimenta uma descida às profundezas e, como suas ancestrais, independentemente das características próprias de sua personalidade, grau social ou raça, é a criatura fêmea engajada em sua tarefa mais fundamental. Ela está a serviço de trazer à luz o segredo das profundezas, da interpenetração dos elementos formadores da vida humana.

Fonte:


15 novembro 2011

Menstruação - tempo de purificação

The universe sings and dances to many rhythms - the long, slow wearing down of moutains; the steady march of the seasons; the staccato alternation of day and night; the wheeling of the sun, the advance and retreat of the moon. To live in a woman's body, especially, is to share in this flux and flow of the cosmos because a woman's awareness is constantly drawn to the natural pattern of fertility reflected in her own menstrual cycle1.

A palavra menstruação está etimologicamente relacionada com "lua", derivada do vocábulo latino mensis (mes) que, por sua vez, nos remete para o termo grego mene (lua).

Idealmente o ciclo feminino deve estar sincronizado com os ciclos lunares: ovulação durante ou perto da lua cheia, considerada a altura ideal para conceber - a lua cheia representa a mente consciente - e a menstruação perto ou durante a lua nova, altura em que o sol absorve mais as energias da terra, fazendo com que a terra chame o fluído menstrual. Alinha-se assim o útero à necessidade de renovação e reposição de energias.

Os ciclos que não estão de acordo com as luas reflectem desequilíbrios maioritariamente causados por uma dieta quantitativa ou qualitativamente inadequada, má digestão, factores emocionais (medo, vergonha, raiva, rancor), pouca actividade física, descanso insuficiente (sobrecarga de trabalho, sexo, viagens, exercício ou actividades semelhantes), poluentes ambientais.

A Ayurveda considera a menstruação como uma dádiva - um tempo de purificação para o corpo, mente e espírito feminino. É uma oportunidade que a mulher tem para contactar com os seus fluxos, os seus movimentos, os ciclos, a sua criatividade, para aprofundar a relação consigo mesma. 

O processo mobiliza todas as toxinas (ama), expelindo-as através do sangue menstrual. Estas toxinas são o acumular de tudo o que não foi correctamente digerido, quer na forma de alimento, percepções ou emoções. Mas claro que o resultado depende do alinhamento da mulher com a Natureza. Esta purificação fica a cargo de apana. Apana vayu é o aspecto energético responsável pela circulação e movimento físico, desperdícios e fluídos corporais descendentes e para fora do corpo. Quando em equilíbrio, apana vayu direcciona o fluído menstrual, contribuindo assim para a harmonia da mulher. Se ocorrer uma obstrução, o ama não eliminado pode espalhar-se pelo corpo, provocando quistos no ovário, miomas, vaginites, endometriose, entre outras desordens. Este movimento descendente contribui para renovar o vínculo com o útero materno e com o elemento terra, além de reactivar a capacidade de receber energia que provém deste elemento.

Recomendações:
- Repousar, reduzindo as várias actividades que temos em mão durante este período
- Meditação, contemplação, cânticos, dança, oração, ... ou qualquer outra prática que viabilize a introspecção. Fluir com a consciência, abrindo-nos à comunicação com o corpo e a mente
- Respirar de forma focada
- Exercício leve: yoga, tai chi, caminhada, ...
- Nutrição adequada: refeições pequenas, leves, quentes e moderadamente condimentadas, com base em grãos (arroz, millet, amaranto, couscous) e vegetais frescos. Evitar alimentos frios e pesados (carne, fritos, a maior parte dos lacticínios). Uma óptima sugestão é kichadi. Chá de pétalas de rosa, flores de hibisco.
- Evitar o banho de imersão durante os dias de maior fluxo, dando preferência ao duche. O elemento fogo, o dominante na memória cósmica do sangue, deve seguir o seu ritmo sem ser perturbado pela persuasiva água.
- Evitar actividade sexual
- Evitar tampões - para além de impedirem um fluir natural, também encorajam a ideia de que podemos agir "normalmente" durante esta fase ...
- Evitar cozinhar. A memória cósmica da comida está imbuída de prana, uma energia ascendente. Por sua vez o sangue está instilado com apana vayu, descendente. Como tal, são poderosas energias que não jogam...

É tempo de celebrar a menstruação como uma fonte de poder feminino, através de rituais de purificação, agradecendo esta oferta e retribuindo-a à Mãe Terra. 

Fontes:
TIWARI, Maya. Women's Power to Heal, North Carolina: Mother Om Media, 2007
SVOBODA, Robert. Ayurveda for women, Vermont: Healing Arts Press, 2000

1MUTKANANDA. Nawa Yogini Tantra, Bihar: India, 2006, p. 31

11 novembro 2011

O Yoga na gravidez e no Parto - Relato de Parto

A maternidade pode mesmo ser parte do caminho para o auto-conhecimento...

Navegando pela net (Shatāvarī) encontrei este maravilhoso relato de parto:

O Yoga Sutra de Patanjali diz que o yoga tem 8 ramos ou partes e Iyengar dispõe estas como partes de uma árvore. A árvore do yoga é formada por oito partes que estão organizadas da seguinte forma: os Yamas (não violência - ahimsa, veracidade - satya, não roubar - asteya, domínio da energia - bramacharya e desapego - aparigraha) como a raíz; os Nyamas (pureza - saucha, contentamento - santosha, esforço sobre si mesmo- tapas, auto-estudo - swadhiaya, entrega ao Absoluto – Iswara pranidhana) como o tronco; os Ásanas (ou posturas psicofisicas) são os galhos; os Pranayamas (expansão da energia vital através da respiração) como as folhas; Pratyahara (a introversão dos sentidos) como a casca; Dharana (concentração) como a seiva; Dhyana (meditação) como a flor e Samadhi (êxtase) como o fruto.

Podemos usar a eterna sabedoria do yoga em nossa vida diária, e colher o fruto desta árvore, é estar inteiro, no momento presente. Isso requer trabalho e disciplina, e vou me aventurar a contar minha vivência, em todas as partes desta árvore, a partir da minha experiência de parto.

Se queremos uma árvore frondosa e com frutos saborosos precisamos preparar a terra. No caso de receber um bebê, isso significou para mim me (re) ligar com a Mãe Terra ou ou Shakti, a energia feminina que permeia tudo o que é manifesto. Também chamada de kundalini shakti, é a energia simbolizada por uma serpente adormecida na base da coluna. Intuitivamente, comecei a me dedicar a práticas que não costumava, tais como plantar, cozinhar, esperar para colher, tomar banhos longos, contemplar a lua e observar suas transformações. Foi um processo de desaceleração e de substituição da conquistadora, aquela que vai buscar o que quer a todo custo, por aquela que recebe, que contempla, que espera, que tem paciência e que cuida. Reverenciando assim a Mãe Terra foi possível acionar a mãe que existia latente dentro de mim.

Sempre quis adotar, mas senti que precisava parir antes, pois Eu precisava passar pela experiência do parto, das transformações do corpo e mais tarde pela amamentação. Para ser mãe foi preciso aprender a receber e a ter paciência. Foi saber ouvir meu mais profundo desejo (ou instinto) ou intuição. Foi saber ouvir minha verdade (satya), quando tudo em mim queria um filho.

Eu intuí que precisaria me preparar por inteiro, com corpo, mente, emoções, espírito. Nunca me auto-estudei tanto!(swadhiaya).E o yoga foi fundamental neste processo justamente por trabalhar em todos os níveis (físico, energético, emocional, mental e espiritual) e por ajudar em minha (re) conexão com a mãe Terra. Conhecer sobre o processo do parto através dos livros do Leboyer e do grupo de gestantes também foi fundamental.

Através do auto-estudo, descobri que minha verdade pedia por uma gestação e nascimento respeitosos, tanto comigo quanto com meu bebê (ahimsa). Este bebê deveria ser recebido de forma natural, sem intervenções desnecessárias, cercado de amor e harmonia, na privacidade do lar. Nosso tempo deveria ser respeitado e nossa separação acontecer calmamente. Com tempo para ele se acostumar a respirar, ele nasceria e viria direto para meu colo, para ser acarinhado e alimentado. Era isso que vibrava dentro de mim, e fui abençoada por encontrar uma equipe cujo trabalho é exatamente este, o de ajudar mães a terem seu filho naturalmente, com respeito e segurança, mantendo com a mãe o poder do parto, lembrando, cultivando, apoiando a mãe no seu poder de parir.

Era meu direito ter um parto respeitoso e humano e também do bebê de nascer quando estivesse pronto e sem violência e eu não permiti que nada nos roubasse esse direito. Também não permiti que as obrigações cotidianas, no trabalho, roubasse meus momentos de descanso e conexão comigo e meu bebê (asteya). Todavia, precisei manter a noção de que meu desejo e trabalho não garantiriam que eu atingisse meus objetivos. Foi cultivando o desapego dos resultados de minhas ações (aparigraha) que permitiu que eu não caísse em depressão depois de tanto sonho e energia investidos, quando tive minha primeira gestação interrompida antes do segundo mês.

Mantive a limpeza do corpo e a pureza da mente, com a prática constante de yoga, meditação e entoação (ou audição) de mantras. Era comum tomar banho de banheira ouvindo mantras que invocavam a mãe divina. Tive a oportunidade de perceber minha capacidade de praticar santosha, o sentimento de estarmos contentes com o que temos, quando demorei 9 meses para engravidar, perdi meu bebê em 2 meses de gestação e depois demorei mais 9 meses para engravidar novamente. Permanecer feliz e grata à vida neste período de muita espera foi um desafio. Depois disto, foi mais fácil praticar santosha, pois o contentamento se tornou meu estado de espírito dominante. Tive desapontamentos profundos, mas que não abalaram meu contentamento, pois estava conectada com a maravilha de gestar um bebê.

Cultivei o auto-esforço (tapas) exercitando meu corpo com caminhadas e prática de yoga para mantê-lo saudável. Muita atenção à respiração e conexão com o mar e a lua. Da mesma forma, mantive durante toda a gestação uma alimentação equilibrada e saudável.

Eu fazia a minha parte, mas mantive a consciência de que o meu ideal de parto feliz (parto natural em casa) não dependia apenas de minhas ações. Eu fazia o melhor que podia mas sabia que isso não garantiria que meu objetivo fosse alcançado. E tive a oportunidade de provar a mim mesma o quanto estava praticando esta entrega ao Absoluto (Ishvara Pranidhana), quando fui orientada pela equipe a conhecer uma maternidade e me familiarizar com a idéia de ter meu filho fora de casa, pois estávamos próximos das 42 semanas de gestação sem sinais de trabalho de parto. Visitamos a maternidade abrindo espaço em meu coração para receber meu bebê fora de casa e de parto cesárea. 

Não importava mais, neste momento, como ou onde chegaria meu bebê, pois o que eu queria era tê-lo em meus braços. Nesse processo de longa espera perdi completamente o medo da dor, que se transformou em um desejo, porque era essa dor que traria meu bebê para mim. Eu desejei, com toda força, sentir as contrações que anteriormente me amedrontavam.

No fim do dia em que visitamos a maternidade, na última consulta domiciliar de pré-natal, lembro-me dos penetrantes olhos azuis da enfermeira ao me dizer que naquela noite eu entraria em trabalho de parto e no dia seguinte meu bebê nasceria. Fui para a cama tranquila, mas quase não consegui dormir de tantas vezes que tive que ir ao banheiro com a barriga dura de contrações indolores. Assim segui por toda a noite. Pela manhã eu estava em franco trabalho de parto e esperei meu marido e as enfermeiras com sentimento de calma, segurança.

Mergulhei na respiração ujjay (pranayama), a respiração vitoriosa, que por uma leve constricção da glote produz um som semelhante ao barulho do mar. O mar de Varuna (deidade hindu), a quem eu entoei mantras ao passear pela beira da praia todos os dias depois do almoço naquele mês. O mar com suas águas que aprendi a reverenciar para acessar a Mãe Divina presente em mim, e com suas ondas que iam e viam, como aconteceria com as contrações.

Essa respiração me colocava “além da dor”. Eu sentia a dor, mas não me identificava com ela, não combatia, não negava. Fiz amizade com a dor, me entreguei. Quando as dores se intensificaram, não havia mais condições de permanecer deitada. Foi aí que meu corpo pediu a posição (asana) de quatro apoios: de joelhos sobre a cama abracei um pufe à minha frente. Assim permaneci durante todo o trabalho de parto, respirando ujjay, com meu marido e as enfermeiras massageando minha lombar e minha testa, na região do ajna chacra, onde eu sentia uma enorme pressão e calor.

Quando me disseram que já estava com quase oito centímetros de dilatação eu já estava afastada dos meus sentidos (pratyahara). Entendi que estava quase com a dilatação máxima e tinha acabado de começar a sentir dor. O bebê estava próximo e já podia ser tocado no canal de parto.

Eu via, ouvia, sentia as dores, as massagens, o cheiro das águas da bolsa recém- rompida, mas estava tudo longe dali. Eu estava completamente conectada comigo mesma, com minhas contrações, minha respiração e meu bebê. Isso tudo era uma coisa só e meu único foco (dharana).

Eu fui para o lugar que as enfermeiras chamava Partolândia. Um lugar fora do tempo e do espaço e de puro silêncio (dhyana). Lá eu fui buscar meu bebê. Eu já tinha vislumbrado este lugar no fim das aulas de yoga, quando minha professora conduzia um relaxamento profundo no fim da prática e me levava com sua voz a um lugar calmo, tranqüilo, onde eu encontrava com uma velha sábia que morava dentro do meu coração, que fazia parte de mim e me ajudaria a parir e a criar meu filho. Já tinham me dito que a razão e os pensamentos nos afastavam deste lugar e que a única forma de chegar lá era praticando a entrega e a confiança nos ritmos da vida.

No período expulsivo, entrei na banheira com meu marido. Continuava na Partolândia, vendo, ouvindo e sentindo tudo que vinha de fora lá longe...O corpo pediu que eu ficasse de cócoras (malásana), e com os pés firmes no chão da banheira cheia d’água, movimentava meus quadris exatamente como tinha feito na meditação em movimento da aula de yoga no dia anterior.

A respiração (pranayama) também mudou de ujjay para uma respiração mais lenta e profunda, para garantir maior oxigenação e relaxamento. Lá longe me esforçava para ouvir uma das enfermeiras que olhava firme em meus olhos dizer: _ “Cheire uma flor e sopre uma vela”. Entre as contrações nos olhávamos, sorríamos e trocávamos algumas palavras. E a cada contração, meu filho estava mais perto de mim.

Daqui em diante, fica difícil traduzir em palavras o que aconteceu. Eu e o mundo nos tornamos um. Eu me senti uma com a força da vida (e é muita força!). Eu estava em Yoga, em samadhi, o êxtase espiritual, o apogeu, o ponto mais elevado atingido na senda decorrente de todos os esforços para alcançar a união com o Absoluto.

“No samadhi, os rios da inteligência e da consciência fluem juntos e se fundem no oceano da alma, e então, a alma brilha em toda a sua glória”. (Iyengar)

E foi isso que me aconteceu quando meu filho chegou.Todos esses passos foram e são muito importantes na vivência da maternidade, que apenas inicia com a gravidez e o parto.

Referência: IYENGAR, B.K.S. A Árvore do Yoga. São Paulo, Globo, 2001.


Célia Regina da Silva é mãe do Caetano, que nasceu de um lindo parto domiciliar planejado com a equipe Hanami em Florianópolis. É Professora de Yoga para mamães e bebês no Yogashala (Florianópolis) e também é idealizadora da Fralda Madrinha (slings, fraldas e absorventes de pano). Conheça mais sobre seu lindo trabalho em Fralda Madrinha e Yogashala.

08 novembro 2011

Mothering Myself - práticas na lua cheia




Nutrindo-me... com a lua cheia.



Celebrar a energia feminina. Como refere Maya Tiwari, the moon is the most intoxicating symbol of a woman's innate rhythms. A lua cheia traz consigo uma essência produtora de ojas, a energia vital que governa o equilíbrio hormonal, influenciando a ovulação e a vitalidade sexual.

Refeições que reforcem o espírito da abundância e da celebração: alimentos integrais e preferencialmente biológicos, que promovam a harmonia do corpo-mente-espírito, tais como: leite biológico, ghee, panquecas, crepes, pão caseiro, sopas, risotto, polenta, grãos integrais e biológicos, que promovam a harmonia do corpo/mente/espírito, tais como leite biológico, ghee, panquecas, crepes e pão caseiro, sopas, risotto, polenta, grão integrais (arroz, bulgur, couscous), leguminosas, vegetais frescos e sobremesas como tarte de frutas, pudins caseiros ou strudels.

Banhos quentes

Massagens

Aromaterapia - pétalas de rosas, lavanda, erva-cidreira, flor de violeta

Mantras

Uma prática de yoga mais dinâmica

Nadi shodhana - respiração alternada

Durante os três primeiros dias da lua cheia estabelecer as práticas que se seguem a fim de evocar e fortalecer o espírito da abundância, da fertilidade e do feminino:
-Postura de cócoras (malasana) durante cerca de 5 m, excepto durante o período menstrual
-Purificação das mucosas internas através de kapalabhati (duas séries de 18 expirações, com uma inalação profunda entre ambas)
-Observar a lua 

Fontes
Maya Tiwari: The Path of Practice e Women's power to heal

03 novembro 2011

Compreensão


O mestre e o seu discípulo caminhavam por uma pradaria. No seu passeio iam ouvindo as vozes das diferentes criaturas: o mugir das vacas, o chilrear dos pássaros, o balir das ovelhas, o relinchar dos cavalos...
- Se ao menos, por um instante, pudesse compreender o que dizem! - exclamou o discípulo referindo-se aos animais.
E o mestre respondeu:
- Se ao menos, por um instante, pudesses compreender aquilo que tu és realmente!


CALLE, Ramiro. "Os melhores contos espirituais do Oriente", A Esfera dos Livros: 2006, p. 415

31 outubro 2011

Magusto/Samhain


Esta é uma noite de Magusto, de magnus ustus, significando grande fogueira, de acordo com o património galego-português. Momento de queimar o passado, abraçando o futuro. Tempo de reflexão sobre os nossos ancestrais, a mortalidade e a oportunidade do renascimento... Celebremos o girar da roda, mergulhando no caminho para o auto-conhecimento através do fogo interior.








27 outubro 2011

Nutrição Ayurvédica


Food, anna, is the first sanskrit word for Brahman, the Supreme Godhead. Everything in the universe is food. The inner Self, Atman, is the eater of the food which is everything. All that we see is food for thesoul. Our development as a soul depends upon our ability to eat and digest the food that is our life (...)1.

A Ayurveda preconiza uma nutrição estruturada em três pilares:

- respeito pelo Ser, implicando um conhecimento de si e reconhecendo os cinco elementos na constituição individual, nos alimentos e no respectivo funcionamento do corpo-mente-espírito
- respeito pela Natureza, conhecendo os sinais rítmicos e simbólicos desta mesma, materializados através das estações, das luas e dos horários e comendo segundo esta leitura
- respeito pelo fogo digestivo, conhecendo os ritmos internos pessoais

O saber qual a nossa constituição individual (prakriti) permite-nos viver de forma um pouco mais sintonizada, pois através das combinações dóshicas (vata, pitta, kapha) percebemos as suas manifestações no nosso Ser, uma vez que estamos a relacionar-nos com uma composição de elementos do Universo.
Os cinco elementos estão presentes no corpo tal como nos alimentos. Os alimentos são encarados como um manter da energia vital (prana) e dependendo da qualidade do seu prana têm determinados efeitos na nossa consciência. Uma dieta promotora de saúde, felicidade e satisfação expressa-se através de seis sabores: doce, salgado, ácido, picante, amargo e adstringente. Cada um destes proporciona uma característica necessária para o funcionamento harmonioso do metabolismo. Como tal, as refeições devem ser preparadas com a inclusão destes seis sabores, sendo que o sabor doce deve ser o dominante na refeição principal do dia, os picantes, salgados e ácidos devem ser utilizados com moderação enquanto secundários e dependendo das estações e os adstringentes e amargos como minoritários e igualmente à luz das estações.
Mas atenção! Os doshas podem ser aumentados ou diminuídos pelos vários sabores. Podem ser aumentados pelos sabores que tenham a mesma composição elementar e diminuídos pelos que possuam uma composição oposta.
Ou seja, desvelar uma dieta adequada à nossa combinação dóshica é uma poderosa ferramenta através da qual podemos fazer escolhas mais esclarecidas relativamente ao que necessitamos ou não para nós próprios.

Outro factor importante para uma nutrição consciente é a leitura da Natureza. Cada estação tem características únicas, com ritmos cósmicos específicos, tal como a nossa natureza metabólica. E no seguimento desta fluidez, e uma vez que tudo é energia e que nos interrelacionamos constantemente com o Universo, os alimentos provenientes da estação que vivenciamos são os mais adequados, pois a sua ingestão é sinónimo de reverência perante o que está a ser dado pela Natureza através do local onde vivemos. Ao estar em sintonia com a energia da Natureza apaziguamos também o nosso fogo digestivo.

Por último, o agni. Apesar de ser fundamental considerar o que comemos, o ponto mais importante é, sobretudo, a nossa capacidade de digerir o que comemos. Quando a Ayurveda referencia a capacidade do estômago em "armazenar" determinadas quantidades, essa ideia remete-se sim para a qualidade da digestão - alimentos não digeridos não são absorvidos, formando toxinas que bloqueiam e dificultam o transporte adequado das substâncias no nosso corpo, desequilibrando o bem estar geral.  






1FRAWLEY, David. Yoga and Ayurveda, Delhi: Motilal Banarsidass Publishers, 2004